segunda-feira, 28 de março de 2011

The Fall

Vento frio da manhã pálida
Espanta o calor, sinto gelar os ossos
Como gelado de mergulho em oceanos
Depois de viagem por sendas áridas

Flores que secam e folhas secas
Esvoaçantes na brisa brava
Lágrima fina que antes molhava
A terra florida, agora preta

Árvore vistosa é despida, nua
Galhos magros e retorcidos
São como chifres desmedidos
Aos poucos exibidos em forma crua

(Vez por outra uma ave abandona
A morada de outrora, vazia, sem dona)

Eu me embriago no torpor do outono.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Kutsuu

Eu sinto frio e torpor
Os meus olhos ardem
Sinto dor
As pessoas partem
Inundadas em terror

E remonto em escombros meu sofrimento
Já não há mais água
Ou alimento
Cheiro o gás de césio
Ao sabor do vento

Tudo o que havia está desmoronado
Todo um aprendizado
Agora soterrado
Toda uma cultura
Num fosso inundado

O medo nos olhos é minha rotina
E juntar meus mortos
A minha sina
Num momento catastrófico
Que nunca termina

Aos antepassados do Shinto uma oração se inclina:
Não se entregue
Ao futuro de Fukushima
A mesma dor
Do passado de Hiroshima.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Aquilo
















Aquilo é o que mais me instigava
Não fazia barulho e quase falava
sem ruído rangia, mudo gritava

Aquilo me surpreendia
De olhos fechados a tudo assistia
por nada enxergar, quase tudo via

Aquilo de fato assustava
O doce perfume sem narinas inalava
na ausência de odores cheirava e cheirava

Aquilo sempre me preocupava
Buscando sabores tudo lambia
sem língua, sem boca, os gostos sentia

Aquilo em terror se mostrava
Moldando as formas sem tato tocava
não tinha membros e tudo abraçava

Aquilo de dia me dava medo
Aquilo de noite horror provocava

terça-feira, 1 de março de 2011

Abissal
















Ele guardou um segredo
Sobre suas próprias fraquezas
E jogou num bau raso
Que enterrou num jardim perdido
Para que nunca mais lembrasse
Quão fraco fora no passado

No caminho de volta
Aprendeu a esquecer de tudo
E o passado enterrado
Não mais o afetava
Nada mais importava
Senão o futuro aguardado

Daí em diante foi vitorioso
Como nenhum jamais conseguiu
E tudo o que fazia era bom
Tudo o que dizia era correto
Tudo o que ordenava, obedecido
E tinha muito sucesso

O baú apodreceu, talvez
Mas isso pouco importa
Pois a terra absorveu
Todo seu sigiloso receio
E no baú, sumiram de certo
Suas falhas rasgadas ao meio

...

De certo nada havia no baú
E nenhuma linha havia ainda
Nas frases vazias nunca escritas
Por mãos receosas, porém francas
Quando todo o segredo ausente
Foi acobertado por raízes

Nunca houve um segredo
Porque nunca houve medo
Nem tampouco as fraquezas
Estas nunca existiram
Era humilde, porém invencível
E seu mote era a coragem

Papel em branco num baú vazio
Apodrecido num abismo frio