quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Bruto

Quebro o vidro,
Apago a fogueira,
Molho o seco,
Sopro a poeira.

Chuto o balde,
Explico o inefável,
Cuspo o sangue,
Giro o imóvel.

Compro a miséria,
Derreto o bruto,
Rasgo meu papel,
Dissolvo o insolúvel.

Limito o infinito,
Elimino o imprescindível,
Virtuo a mácula,
Perfuro o intangível.

Registro o desconhecido,
Trituro o inabalável,
Ridicularizo o sério,
Dicotomizo o inseparável.

Mas nunca (nunca mesmo)
Elogie estas minhas virtudes.

Detesto puxa-sacos.

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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Rotina

Você acorda às cinco da manhã. Suas pálpebras doem e sua visão está turva. Obviamente o sono ainda persiste, e seu reflexos estão prejudicados.

Você trabalhou até tarde no dia anterior, e depois fez hora-extra em casa, tudo para conseguir pagar a conta de telefone. O cansaço é como uma mochila de chumbo cravada em seus ombros.

Sua rinite ataca, em conjunto com a sinusite crônica. A leve febre noturna não baixou depois do banho frio. Você detesta banho frio.

Vai ter de correr para pegar o ônibus. Isso significa que o café da manhã vai ficar para outro dia. Fica sempre para o dia seguinte, desde que você começou a trabalhar.

Sua caminhada até o ponto de ônibus é longa. Você sobe a ladeira íngreme com perseverança, até que começa a chover forte. Na pressa, você esqueceu seu guarda-chuva. Sua perseverança acaba, sua subida é cada vez mais cansativa. Você corre o mais rápido que pode, a ponto de ver o único ônibus que o levaria ao trabalho em tempo. Ele acaba de sair do ponto e virar a esquina. Sim, você chegará atrasado.

Após quarenta minutos aguardando molhado pela chegada do seu ônibus, ele finalmente chega. Lotado. Você se espreme na catraca e consegue milagrosamente passar. Em seguida seus pés são pisoteados por senhoras gordas que correm para se amontoar nas pequenas janelas.

Um sujeito atrás de você estava resfriado. Você percebe isto ao passar a mão na gola de sua camisa. Ela não estava tão molhada antes.

Você busca chegar próximo à porta de saída. Após diversas cotoveladas e hematomas, você chega próximo à porta. Uma senhora carregando duas bolsas gigantes aloja-se às suas costas. A cada curva, as bolsas e a senhora fazem um peso descomunal em suas costas. Sua escoliose acusa que vai doer pela semana inteira.

Seu destino é alcançado após uma hora e meia. Ao tentar descer do ônibus, sua calça fica presa em uma limalha de ferro da precária lataria interna do veículo. Além de arranhar sua perna, faz um furo em sua calça.

Silêncio.

O motorista do veículo, irritado com sua pausa, ameaça arrancar com o veículo. Você consegue descer.

Da janela do ônibus, um casal de senhores deseja a você um solene bom-dia. Com sangue nos olhos e sentindo-se como uma besta pronta a atacar, você engole em seco e responde vigorosamente:

- Bom dia!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Pensando alto

Para onde voam os pássaros que sobrevoam minha janela?
Acho que voam apenas porque podem.
Eu queria poder voar mas estou atado ao chão.

Voando eu seguiria leve
Talvez sentisse menos cansaço
Ou talvez o cansaço seja algo irrelevante quando se está voando.

Seria a brisa muito fria nas alturas?
Em nada me afetaria o frio
Se as alturas parecem tão baixas quando é possível subir mais e mais.

Eu olharia o mundo de cima
E seria tudo tão bonito
Quando variasse a perspectiva.

Poderia seguir uma folha
Que voasse sem destino levada pelo vento.
Talvez quisesse ser a folha.

Viagens mirabolantes sem limites.

Eu invejo os pássaros que sobrevoam minha janela
Resignado em pelejar na minha vida de  gaiola.

Conclusão Fatídica

Concluo que não há mais tempo.

Havia tempo quando falava-se em derretimento das calotas polares, ou quando o assunto era o buraco na camada de ozônio. Nesta época havia tempo. E era pouco.

Havia tempo quando a mata atlântica era desmatada, quando árvores multicentenárias viravam carvão, quando a biodiversidade caminhava para o processo de extinção e a poluição envenenava nossos pulmões.

Quando as crianças morriam de fome e sede, e ditadores insanos ameaçavam a paz com suas fomentações de guerras e destruição, havia ainda algum tempo.

Há agora uma surpresa hipócrita diante das catástrofes globais. Um sentimento tosco de tristeza diante da realidade que se exibe faz séculos diante dos nossos olhos cegos de ganância e egocentrismo. Não há culpados quando todos estão errados.

O mundo está prestes a regurgitar em todos nós o veneno e a destruição que causamos desde as mais remotas eras. Não há mais rumores obscuros de perdição e fim do mundo. Há agora uma clara imagem distorcida pela dor, que mostra-se diante de nós como um fino manto translúcido.

O planeta vai mal. E a culpa é sua.

Não assista as imagens das catástrofes exibidas em sua televisão com sentimento de pena do seu semelhante. Assista a retribuição da natureza com sentimento de culpa, pois como eu escrevo, a culpa é sua.

O que você faz para melhorar a saúde do planeta? O que faz para o bem da humanidade?

O tempo acabou. Faça tudo o que puder agora, pois amanhã já será tarde.

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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Insegurança

Garota medrosa
Até aonde vão as intenções dele?
Ou será que ele possui alguma?
Ela disse: 'Ele realmente nunca olha para mim.'
'Eu já dei todas as oportunidades.'

Na sala do andar debaixo
Ele sentou e ficou observando.

'Nunca mais cometerei este erro novamente!'

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Garoto medroso
A prudência nunca compensa
E tudo que ela deseja custa seu dinheiro.
Ele disse:'Mas ela nem mesmo gosta de mim.'
'E eu sei disso, pois ela mesma já falou.'

Na sala do andar debaixo
Ela sentou e ficou observando.

'Nunca mais cometerei esse erro novamente!'

(Tradução livre de Girl Afraid - The Smiths)

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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Havia espadas, havia flores e havia o fogo dos céus

Havia homens e seus cavalos, encobertos pela penumbra noturna que entremeava o miolo de um bosque. Homens cansados e com baixa-moral, todos com fome e seus medos, beirando o limite entre a razão e a loucura.

Havia mulheres, donzelas e senhoras. Mulheres escondidas em seus redutos, singelos casebres de fraca madeira e luz tremulante. Nas fogueiras os legumes coziam entre vapor e fumaça.

Havia o dragão - a besta de fogo. Ostentando sua enorme envergadura e seu poder de fogo, nada o intimidava. Era o retrato da glória de seus antepassados, que agora são astros celestes.

...

Os homens invadem a caverna no centro da floresta. Motivados apenas pelo desejo de reencontrar suas mulheres e viver suas vidas em paz, sem a sombra de medo da criatura ígnea. Alguns morrerão, senão todos.

As mulheres se deitam em seus leitos. Seus pensamentos trazem imagens de seus senhores, condenados ao cruel destino da morte de fogo. Seus olhares vão para suas crias, o que restará de seus amores.

O dragão aguarda ansioso pelo combate. Meros seres de carne em sua insignificância. O que serão eles diante a altivez dos senhores de fogo? Certamente o dragão aguarda por seu banquete, certo de que a vitória é garantida.

...

Havia espadas, havia flores e havia o fogo dos céus.
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Criatura

Crio coisas que mudam outras coisas. Crio coisas que de nada servem. Crio textos que executam textos, e estes servem ao seu propósito. Faço chover em 1024x768px, ou então apago tudo o que estiver aceso.

Sopro personalidade em tags vazias, só para ver a personalidade ser incorporada, usufruída e expurgada.

Milhões de possibilidades destruídas ao puxar uma tomada.

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